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O "dama de ferro"
Para regozijo dos neo-conservadores e neo-liberais, e para temor da esquerda, Sarkozy (ou 'Sargento" Sarkozy, como é chamado por aqui) parece querer encarnar o estilo Margareth Thatcher adaptado à política francesa. Jornais europeus já o chamam de "a dama de ferro" do momento. Sua mulher se orgulha de dizer que ele sonha desde a infância em comandar a nação, e que tem um apetite "atlético" para impor reformas à França. Entre as pérolas já elencadas no repertório neo-conservador: aumento da jornada de trabalho (hoje em 35h. semanais) e instituição da garantia de serviços mínimos quando da deflagração de greves (na prática, a impossibilidade de as centrais sindicais pararem o país com greves). As centrais sindicais já avisaram que vai ter pau...
Mas a pérola da nova "dama de ferro" é a seguinte, para usar uma frase dita por ele ao longo da semana: "Eu vou acabar com a cultura de protestos de Maio de 68 que se instalou no país, e que faz com que as políticas de governo sejam ditadas pelas ruas". Para quem sabe o que Maio de 68 significou para o século recém-finado, o recado tá dado...
Escrito por aecio às 09h20
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Pé frio?
Em novembro de 2005 fui ao Eládio de Barros Carvalho ver Náutico v Grêmio. Não preciso comentar o que sucedeu... Em outubro de 2006 fui-me embora do Brasil, e em novembro o Náutico subiria à Primeira Divisão.
Ao chegar na terra da rainha, adotei o Arsenal como clube para torcer, por conta do uniforme principal, que é alvirrubro, e porque moro há vinte minutos do Emmirates Stadium. Na Liga dos Campeões desse ano, os clubes ingleses monopolizaram a competição. Dos quatro clubes na refrega, três estão nas semifinais: Chelsea, Liverpool e o favorito Manchester. Quanto ao Arsenal, único dos quatro que ficou de fora das semifinais, bem, eles ganharam um torcedor indesejado...
Escrito por aecio às 16h14
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Maratona de Londres
Improvável leitor, acabo de chegar da Maratona de Londres. Meu desempenho até que não foi ruim. Até quando tive paciência de cronometrar a minha marcha, meu tempo ia em 4 horas e 14 minutos, o dobro do tempo que o ganhador da prova levou para concluir os 26km de trajeto, e eu sequer atravessara Tower Bridge. Dei de adotar o método criado por meu amigo Leal, que o utiliza na Paulicéia, e posso dizer que os resultados, se não são positivos do ponto de vista do atletismo, são excelentes do ponto de vista etílico. Dei a volta ao mundo da cerveja em poucas horas, entre deliciosas cervas australianas, belgas, alemãs, espanholas, mexicanas, irlandesas, e até inglesas (sim, caros, pode-se achar cerveja inglesa em Londres, embora seja tão difícil quanto achar um restaurante de comida britânica). Só não achei cerveja sul-americana. Aliás, desde que cheguei não as vi nos pubs londrinos, e não posso dizer que sinta falta.
O problema é que o "Método Leal" pode levar uma família inteira à bancarrota - sobretudo se aplicado em Londres, onde um pint custa pouco mais de 12 reais. O fato é que, ao chegar ao palácio da realeza, o fim da prova, eu havia consumido algo em torno de 20 a 30 pints, comprometendo todo o salário do mês. A minha senhôra recebeu-me a vassouradas, enquanto eu exibia, orgulhoso, a medalha entregue ao retardatário dos retardatários. Resultado: devo dormir na porta de casa hoje. Felizmente a temperatura atingiu patamares civilizados com a chegada da primavera. Quanto às finanças da família, felizmente um casal amigo residente em Granada resolveu nos visitar na próxima semana. Ela, uma paraibana da gema; ele, um mouro disfarçado de tricolor pernambucano. Não sabem eles que bancarão as despesas da família ALA pelo resto do mês.
Finalmente, a Maratona de Londres esse ano registrou uma grandissíssima novidade no atletismo internacional: o vencedor foi um queniano! E a ordem que o sucedeu era mais ou menos a seguinte: um etíope, outro queniano, um nigeriano, um queniano... Sorte deles que emprego o Método Leal.
Escrito por aecio às 12h46
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enxadrista no xadrez
Depois de matar um ex-agente da KGB em pleno centro de Londres, em dezembro passado, com substância de radiação nuclear, o governo russo agora se diverte prendendo jornalistas e líderes de oposição durante passeatas públicas. Até o velho Kasparov entrou na mira. Pra quem assistiu "A vida dos outros", filme sobre repressão política durante o socialismo na Alemanha Oriental (que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro), dá arrepios ver a desenvoltura de Putnin na atualidade. Aliás, pra quem não viu o filme acima, recomendo fortemente.
Escrito por aecio às 18h16
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"Modernidade de redoma" (parte I)
O Amaralinas reproduz abaixo entrevista concedida pelo cientista social Otávio Velho ao jornal Folha de São Paulo, em 07 de abril de 2007, e divulgada no Jornal da Ciência, da SBPC, em 10 de abril de 2007. Tema da entrevista: o modo como o Brasil historica e colonialmente lida com essa coisa chamada "modernidade". Interessante o que ele denomina ser, entre nós, o cultivo de uma "modernidade de redoma". Motivo da reprodução da entrevista no Amaralinas: concordo com o argumento de Otávio Velho. Detalhe: não entro nessa de defesa da monarquia que abre a entrevista, embora a justificativa dele seja inteligente.
Folha - Como é que se relaciona o estudo da modernidade entre nós, brasileiros, e a defesa que o sr. fez da monarquia à época do plebiscito, em 1993, de que trata no livro?
Otávlio Velho - Na época em que foi proposto o plebiscito, me chamou a atenção como é que entre pessoas bem pensantes, intelectuais, e mesmo além desse círculo, na população em geral, a monarquia ficou sendo associada ao atraso, a uma coisa "pré-moderna", a uma coisa "fora do lugar". Observando, na verdade, o que acontece no mundo contemporâneo, não se pode dizer que os países que são republicanos são mais avançados ou modernos que os países monárquicos. Basta você se lembrar do Reino Unido, da Espanha. Então esse negócio, de alguma maneira, me ajudou a pensar mais sobre a modernidade entre nós. "Mais realistas que o rei." Nesse caso, por que pretendemos ser mais modernos que os supostos modernos, aqueles que inventaram a modernidade? Essa era a questão para mim. Pode-se falar também que havia aí nesse caso uma espécie de reificação da modernidade. Ela, hipostasiada, retirada de seu contexto, e colocada em abstrato. E nós, até por um certo sentimento de que temos alguma falta, alguma falha em relação a ela, seríamos obrigados a ser mais modernos do que os modernos, talvez para mostrar, digamos assim, nossa aliança com a modernidade. Vira então um anátema falar em monarquia. Minha participação no plebiscito foi, portanto e de certo modo, performática. Por ela, tentava desnaturalizar essa questão para tentar ajudar as pessoas a pensarem de uma outra maneira.
- O sr. trata esse "ocidentalismo" no Brasil, essa fome de modernidade, como algo que foi usado durante muito tempo como um fator de distinção. Alguns têm acesso a ela, que se torna então uma espécie de "bem de luxo". É isso?
- Exatamente. Nessas situações, em países como os nossos -estou pensando no Brasil, mas também em vizinhos latino-americanos-, é como se você tivesse que criar uma modernidade de redoma às custas da discriminação com os não-modernos internos ao país. Que é um pouco o que a gente vê, por exemplo, na defesa da universidade. Os princípios de igualdade e de mérito na universidade se dão às custas da expulsão ou do não acesso à ela de boa parte da população. Era assim. Agora creio que está começando a mudar. Até de uma maneira que é diferente das que imaginávamos, quando começam a surgir essas faculdades particulares que proliferam por aí. Ficamos um pouco assustados, mas é uma forma até um pouco perversa de irem surgindo soluções para uma situação insustentável. Essa modernidade de redoma é algo que podemos associar até às imagens do colonialismo. Quando, por exemplo, você tem o chá das cinco entre os colonizados da Índia, às custas do que acontece do lado de fora dos palácios. É como se entre nós se revelasse esse lado oculto da modernidade, que é o colonialismo. Hoje muitos tentam pensar como ele é constitutivo e até instaurador da modernidade. Uma coisa que os europeus, de muitas maneiras, ocultaram; e que aqui, para bom entendedor, se revela, quase que em forma mesmo de caricatura.
- Isso se parece em muitos momentos com o que diz o Roberto Schwarz sobre o uso ostentatório de "bens" de cultura no século 19, no Brasil escravocrata.
- Sem dúvida nenhuma. Acho que a intuição do Roberto Schwarz se mantém e se estende ao século 20. Ela nos ajuda a pensar hoje em dia. É interessante como no Brasil os arranjos institucionais que herdamos dos EUA e da Europa são reificados. Ninguém pode mexer em nada! É como se estivéssemos numa loja de cristais. Nada pode ser mexido. Coisas que os americanos e europeus não precisam fazer. Talvez eles prestem menos homenagens retóricas à democracia e a vivam, por isso mesmo, mais plenamente. Aqui qualquer proposta de mudança de cenário institucional é imediatamente barrada. Não lidamos com essas coisas com naturalidade. É como o estrangeiro que aprende uma língua e não consegue nunca dominá-la. Acaba falando mais corretamente a língua do que o nativo o faria. A modernidade, nos modelos, supõe uma separação muito grande entre os domínios – economia, religião, política, tudo muito separado. E é como se no Brasil nós tivéssemos dificuldades em realizar essa separação entre domínios. Hoje fico pensando se essa dificuldade também não ajuda a revelar uma dificuldade que não é só nossa, e que não é necessariamente uma dificuldade. Imaginamos que há um problema, por exemplo, quando começa essa história de evangélicos na política. Estão misturando religião com política! Ora, não se mistura religião com política na Europa e nos EUA? Claro que sim. Nós é que inventamos que não podemos misturar. Nem conseguimos lidar com isso. Somos contra. Não queremos enxergar. Isso é impossível ou inaceitável. É preciso reconhecer que essas coisas existem e assim lidar melhor com elas. Como essa história dos lobbies. Não podemos ter lobbies! Mas, ora, eles estão aí. Não é melhor reconhecê-los e regulamentá-los, como aliás os americanos fazem?
Escrito por aecio às 17h45
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"Modernidade de redoma" (parte II)
- Lida-se com a modernidade assim porque ela é "importada" ou isso tem lógica dentro do país?
- O que me interessa mais é como esse "horizonte colonial" funciona entre nós. Há grupos sociais entre nós, sobretudo nas elites, que incorporam isso. Por que acontece dessa maneira? Uma pista possível é a criação de distinções hierárquicas. Mas também nós fomos, sim, colonizados. Existe um modo de olhar o mundo que se impõe. Ele escanteia alternativas, outras maneiras de olhar o mundo -e daí nossa dificuldade em pensar alternativas.
- E as cotas? Elas têm a ver com a crise dessa modernidade de redoma?
- É um terreno de paradoxos interessante. As pessoas que são contra as cotas se perguntam: como que essa idéia de raças, que é justamente uma invenção colonial que nós queremos esquecer, vai ser agora utilizada pelos supostos colonizados? O que se devia querer não é justamente que não se fale mais de raças? Mas eu pergunto: por que só se pode falar em raça na hora de discriminar, e não na hora de combater a discriminação? É na hora de combater a discriminação que vocês descobrem que não existe raça? A novidade é que esses instrumentos, que eram utilizados pela classe dominante, hoje passam a ser utilizados pelos dominados.
- É como se o sr. dissesse que as raças já foram feitas, e que não dá agora para negá-las?
- Sim. Essa não é uma questão da "Ciência", com "c" maiúsculo, mas sim uma questão política. De alguma maneira, como fato social, elas estão aí. Não só foram feitas, como continuam a ser feitas. É um negócio interessante. Fazia parte de um certo pensamento moderno dividir o mundo entre as coisas reais e as coisas construídas. Hoje a insistência é que uma coisa pode ser real e construída ao mesmo tempo.
- Há mudanças nessa forma de a sociedade brasileira se relacionar com a modernidade?
- É talvez possível dizer que a modernidade de redoma está em crise. Não está mais conseguindo construir as suas redomas, que de certa forma criavam um espaço privilegiado e garantido. A solução com mundinhos fechados já não se sustenta. Isso cria uma época de muita turbulência, aparentemente de caos, mas também muito interessante.
Escrito por aecio às 17h39
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Dicionário Amaralinas
Quedense tranquilis: expressão refinada oriunda do espanhol arcaico, que designa uma recomendação ou apaziguamento de uma situação a fim de que os interlocutores preservem a serenidade, placidez. Contemporaneamente o uso vulgar é dado pela expressão mais usual “quedarse tranquilos” ou “ponerse tranquilos”, embora algumas vezes o uso da variante clássica seja observado, para regozijo dos amantes do bom espanhol. Mesmo entre os escritores e poetas clássicos, o manuseio da expressão “quedense tranquilis” requeria habilidade ímpar com o idioma espanhol. Miguel de Cervantes, autor do clássico da literatura universal "Dom Quixote", é considerado aquele que mais e melhor a utilizou, contribuindo para o estabelecimento dos alicerces básicos da prosa moderna.
Para surpresa e admiração de filólogos, lingüistas, escritores e poetas em língua espanhola, recentemente o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, empregou com perfeição a expressão, ao conceder entrevista a um grupo de repórteres durante almoço com o presidente do Equador – o qual, diga-se, vergonhosamente desconhecia “quedense tranquilis”. O presidente brasileiro referia-se ao temor dos jornalistas de que o festejado “apagão aéreo” se repetisse durante o feriado de Páscoa, e acalmava-os, assegurando que não havia motivos para tal temor.
A admiração de intelectuais e literatos de língua espanhola foi tripla. Primeiro, admiraram-se com a perspicácia com que a expressão foi utilizada por um chefe-de-Estado, sobretudo numa situação corriqueira, já que sempre fora utilizada como evidência de genialidade literária. Segundo, admiraram-se que a expressão fosse brilhantemente reavivada por um brasileiro, praticante do idioma português, e não por um praticante do espanhol – o que obviamente lhes infringiu certa vergonha, sobretudo diante do desconhecimento da expressão demonstrado pelo presidente equatoriano. Terceiro, não conseguem entender como a imprensa brasileira e setores da intelectualidade criticaram e fizeram mesmo chacota do presidente por ter usado a expressão. Atribuem tal desfaçatez a dois motivos básicos. O primeiro, o recorrente preconceito classista que, de acordo com o compositor e escritor Francisco Buarque de Holanda, é dirigido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E segundo, a total ignorância daqueles que criticaram o presidente, deixando de perceber a genialidade contida no uso da expressão. Tal desconhecimento gritante do espanhol arcaico contrasta com o europeísmo com freqüência arrotado pela intelectualidade brasileira.
Escrito por aecio às 18h03
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O Sertão e a beira-mar
Previsões científicas recentes – não entro no mérito se catastrofistas, realistas ou até otimistas – dão conta de que em cinqüenta, sessenta anos cidades brasileiras como o Recife e o Rio sofrerão graves inundações por conta do festejadíssimo aquecimento global, em virtude de sua posição em relação ao nível do mar. Precavido que sou, já planejei com a minha senhôra o que faremos na volta ao Brasil. Decidimos que voltaremos de vez pro Sertão, e lá chegando compraremos um casebre decente que transformaremos em barraca de água de coco e venda de bronzeadores. Andamos vendo os preços de uns lotes de terra, que facilmente transformaremos numa pousada. Também compraremos alguns bugres para aluguel e equipamento especial para passeio em dunas. E, claro, contatamos uma equipe de TV britânica que fará uma série televisiva sobre os tubarões sertanejos. De resto, é abrir as espreguiçadeiras, o guarda-sol, as cervejas geladíssimas e aguardar a chegada do Atlântico. Num messianismo às avessas, o sertão vai virar mar...
Escrito por aecio às 17h18
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Freudiana I

Escrito por aecio às 18h48
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Freudiana II

Escrito por aecio às 18h47
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O irreal freudiano

(Traço de Sigmund, referência a um conhecido motivo da arquitetura grega)
Entre os atrativos do fim de semana, visita ao Museu Freud, em Hampstead Heath. Uma dose de ocultismo na primavera vacilante. O museu fica na casa em que Sigmund passou seu último ano de vida (1938-1939), e na qual sua filha, Anna, viveu até morrer, em 1982. O bairro foi desde fins do XIX reduto de intelectuais e artistas de vanguarda, com moradores de inteligência imodesta que vão de Sigmund, passando por aquele que os portugueses chamam de Carlos Marcos, parte da galera da Bauhaus e outros modernistas, surrealistas e por aí vai... Boa parte dos artistas e intelectuais da Europa correu para lá durante a vigência do Nazismo, inclusive Sigmund. Após a segunda guerra, a especulação imobiliária toma conta do lugar.
O bairro é um despautério de belo, e a casa dos Freud não é nada desconfortável. Detalhe: já na década de 1930, Sigmund cobrava a bagatela de £150.00 (pouco mais de R$ 600,00) por uma deitada no divã, como forma de bancar seu exílio em Londres. Como contribuição ao culto quase gilberto-freyriano (por instantes pensei que estivesse na Fundação Gilberto Freyre, tamanho o culto à personalidade), deixamos £8.00 no cofrinho dos Freud e adentramos a cozinha do pai da psicanálise.
Se alguém estiver interessado em ver os desenhos de Freud, o divã em que ele clinicava, os seus vários retratos e caricaturas e outras banalidades, vale a pena. Do contrário, frustra-se inclusive por não se conseguir discernir os títulos dos livros constantes nas estantes da biblioteca. Aqui e acolá um Goethe e muito Poe, mas o resto não dava pra ver nem ler – além de muito distante do cordão de isolamento, escuro (muito diferente, por sinal, da considerável biblioteca de Trotski, que já tive a oportunidade de visitar e conferir). De interessante mesmo no museu, só a parte que fala das viagens de Sigmund pela Europa, e as verdadeiras ‘viagens’ que ele derivava delas. Atenho-me ao exemplo mais definidor do ‘gênio’ freudiano.
Obcecado pelo passado, Freud tinha na Itália e na Grécia o seu sonho de viagem turística (obsessão imperialista, obviamente). Ao viajar pela primeira vez a este último país, foi visitar o Pathernon. Gostou tanto, que disse que foi sua primeira experiência com o “irreal”. E é aí onde reside sua criatividade de ficcionista. O sujeito não se torna um dos principais nomes do século XX por acaso. Pois Sigmund disse em carta à esposa que o êxtase intelectual e estético propiciado inicialmente pela visão do conjunto arquitetônico deu lugar a um estado de paralisia e terror. E então ficou desnorteado por muito tempo, a ponto de comprometer a continuidade do passeio. O motivo de tanto alvoroço ele descobriria mais tarde: ele se deu conta de que chegar ali, no monumento considerado o ápice da criatividade e genialidade ocidental, implicara em ultrapassar o seu pai, pois que este sempre sonhara e no entanto nunca pudera ir à Grécia. A tormentosa sensação de superar o pai foi para o pobre Sigmund motivo de uma culpa inelutável, a qual fez com que o prazer estético e intelectual de estar no Pathernon desse lugar ao pavor e ao assombro. Daí o contato com o “irreal”. Reconheçamos os recursos literários de Sigmund!
Para não sair de mãos abanando, comprei um retrato do pai da psicanálise desenhado por Dali e um souvenir da cadeira exclusivamente projetada para o dito cujo – bonita e criativa. De resto, enviarei uma cópia de uma das coleções de antiguidades de Sigmund para um dos amigos na Terra Brasílis. Trata-se da coleção “Phallic Amulets”. Talvez um amigo sociólogo-psiquiatra seja o merecedor da oferenda. Sempre desconfiei que por trás de suas críticas ferrenhas à psicanálise se esconde um temor incomensurável do falocentrismo freudiano.
Próximo fim de semana visito o cemitério em que Carlos Marcos jaz, no mesmo bairro. Sim, companheiros, Marx morreu! Pior: está enterrado na terra que pariu o neoliberalismo.
Escrito por aecio às 18h44
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Terra Recífilis (episódio de hoje: "Acerto de contas")
O blog “Acerto de contas”, veiculado na página do Jornal do Commercio, do Recife, noticiou anteontem (sábado) e ontem (domingo) um suposto arrastão que teria ocorrido na avenida Domingos Ferreira na tarde de sábado. Como prova do arrastão – que, diga-se, não conhece registro policial e é negado pela PM de Pernambuco – os autores do blog, um jornalista e um economista, se referem a um e-mail que lhes fora enviado por uma leitora.
O caso dá o que pensar. Primeiro, o fato de a PM negar resolutamente a ocorrência do arrastão já põe em descrédito a credibilidade da “notícia”. Segundo, ancorar a credibilidade da informação num e-mail enviado por uma leitora é insatisfatório, para não dizer pouco profissional. O sujeito não precisa ter cursado jornalismo ou comunicação social para saber que a veiculação de uma notícia, sobretudo da gravidade de um arrastão, depende minimamente dos seguintes fatores: confiabilidade da fonte, checagem da informação, e consulta aos principais atores envolvidos (neste caso, vítimas, PM, testemunhas e até os praticantes do arrastão). Já falamos da credibilidade da fonte, como também da resoluta negativa da PM. Quanto às supostas vítimas, os editores do blog sustentam algo do tipo: soube-se que várias outras pessoas estavam presentes, ou ainda, recebemos uma série de e-mails de pessoas que se disseram vítimas. Nada de checagem dos fatos. Detalhe: a página do JC chamava um link para a cobertura de um arrastão em Boa Viagem.
Ao que parece, a diferença entre boato e notícia tende a se diluir com o advento do atrelamento de blogs aos principais jornais do país. Quem acompanha minimamente os blogues de jornalistas que fazem a cobertura dos bastidores do poder em Brasília sabe bem o que é isso. Decididamente, é a lógica do vale-tudo, do boato que adquire o status de notícia. Pior, os autores dos blogues estão entre os mais prestigiados jornalistas da imprensa brasileira. Só pra citar um caso recente, a cobertura dada à tão badalada nomeação de Marta Suplicy a um ministério do governo transformou-se numa verdadeira novela nos blogues de alguns jornalistas. E o curioso é que o boato veiculado no início do dia, com ares de notícia fresca, era logo desacreditado ao longo do dia, ou em noticiários confiáveis.
Não tenho nada contra a inclusão de blogues no repertório de pautas dos jornais. Entretanto, há evidências de que a prática tem empobrecido o jornalismo. Uma coisa é um blog ordinário, como o meu, o seu, veicular informações (des)pretensiosas a respeito de fatos os mais variados e com coloridos argumentativos os mais variados. O compromisso com a ficção pode ser explícito. No entanto, no caso de blogues veiculados por jornais de grande circulação nacional, a informação ali prestada é completamente institucionalizada, para não dizer que se trata de uma informação veiculada em meio de comunicação que depende de concessão pública.
No caso em questão, o assunto tratado envolve um delicadíssimo ponto da pauta política nacional (violência urbana), particularmente do cotidiano recifense. É curioso notar que o tom da informação guardava um contido senso de “furo de reportagem”, embora os próprios editores reconhecessem que a fonte não era lá essas coisas. Ainda assim, insistiam na especulação em torno de um mero boato. Repito: se fosse no meu, no seu blog, problema nosso, e dos leitores. Mas este não é o caso em questão.
Num exercício de sociologia de botequim, vem à mente as reflexões de Karl Marx em torno da lógica da mercadoria sob o capitalismo. Em meio ao estudo da dinâmica de produção, distribuição, circulação e consumo, Marx dizia haver uma lógica dialética imbricando a primeira e a última das instâncias referidas. Resumindo, quem determina quem: a produção determina o consumo, ou o consumo determina a produção? Exercício perfeitamente aplicável ao estudo do empobrecimento das telenovelas brasileiras: o telespectador (consumidor) induz o conteúdo das novelas veiculadas pelas emissoras (produção), ou as telenovelas é que têm contribuído para o declínio do gosto na plebe rude? Obviamente as duas coisas podem andar juntas.
O preço da desejável desintermediação cultural promovida pelas festejadas novas tecnologias da informação pode ser, algumas vezes, o reforço das mesmas instâncias intermediadoras que estas tecnologias querem combater. Afinal, a lógica de produção e consumo não se rende facilmente, como o demonstra a “captura” de alguns blogues pelos veículos da grande mídia. No caso em questão, a violência urbana parece ter entrado no rol dos produtos a serem consumidos pelos leitores brasileiros, numa lógica que contribui para a sua reprodução.
Em tempo: não se encontra mais qualquer post alusivo ao suposto arrastão em Boa Viagem no blog “Acerto de contas”. Será que houve algum acerto de contas?
Escrito por aecio às 16h29
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Vigília do belo
Não raro se vê, em algumas ruas e avenidas que entornam o centro de Londres, buquês de flores afixados nos postes de iluminação ou semáforos, e mesmo em algumas calçadas. Vistas de relance pela janela do ônibus ou quando se sai flanando pelas ruas, as flores chegam a causar certo enleio em face do corre-corre da vida urbana. O viajor desavisado pode ser induzido a pensar que se trata de uma atitude fortuita ou uma inclinação geral pelo cultivo e exposição de flores. Mas a beleza e o aroma das flores em via pública querem registrar que ali, naquela esquina ou curva ou bifurcação, uma vida irredutível foi encerrada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana.
Quando dos atentados terroristas de julho de 2005, as calçadas e as plataformas de desembarque das estações de metrô atingidas, como a de King’s Cross & St. Pancras, ficaram repletas de buquês e flores dispersas. Uma interpelação a que se pensasse – até pelo olfato - no puro e simples registro do mal.
No Brasil é bastante comum, sobretudo nas cidades interioranas, afixar-se uma cruz rodeada por flores no acostamento das estradas. É a conhecida cruz-de-beira-de-estrada. Ali também está dito que uma vida irredutível foi surrupiada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana. A beleza singela do ato nunca deixará de ser uma angular incômoda no raio de visão dos viajores. O hábito, de tão corriqueiro, caiu no anedotário popular. No Sertão de Pernambuco, quando um sujeito se veste elegante e garbosamente para ir à rua, costuma-se fazer chacota dizendo que ele vai telefonar para os parentes em São Paulo, vai fazer exame de fezes, está um lord, alinhado, ou está mais enfeitado que cruz-de-beira-de-estrada.
Imagino este hábito das flores estendido às grandes metrópoles brasileiras. Cidades como o Recife, Rio de Janeiro ou São Paulo se transformariam em imensos jardins, caso cidadãos anônimos resolvessem registrar com flores sempre que uma vida fosse encerrada abruptamente em lugares públicos, seja pelo acaso de um acidente, pela negligência humana, ou pelo registro puro e simples do mal. Neste caso, o uso da cruz seria impensável: as vias públicas ficariam interditadas, e seria necessária toda uma política de reflorestamento para dar conta das árvores postas abaixo para extrair a madeira das cruzes.
Com as flores, por outro lado, as vias públicas exalariam um aroma agradável, sensual, e igualmente perturbador, incômodo. Como se o belo teimasse em exercer sua vigília diante do grotesco da banalidade da vida e da morte, diante de um equilíbrio social perverso. O aromático desconforto seria plástico e humanizador. Ao menos um sinal de que não estamos tão anestesiados assim.
Escrito por aecio às 15h36
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serra o costa

Antes de ler a entrevista de Franklin Martins (de que falo no post abaixo) à FSP, estava com as duas orelhas em pé com respeito ao tema da TV Pública proposta pelo governo. E quando saiu a notícia da crise diplomática instaurada pelo Global Hélio Costa, achei que a coisa era mesmo ruim. É curioso ver o embaixador venezuelano no Brasil dizer que o Global não foi nada diplomático ao criticar o modelo de TV estatal de seu país, enquanto ele, que é quem é diplomata, foi ainda menos diplomático. Fica a impressão de que não há anjo na história entre os dois - afinal, quem vai sair publicamente em defesa de Hélio Costa...
De resto, é preciso muito torneio de oratória para contornar a evidência de que a estatal venezuelana dedica-se a erigir o personalismo a la Chávez. O que dizer de seu programa dominical, que deve ter tanto ou mais tempo que o glorioso programa dominical de Gugu Liberato ou Sílvio Santos? E era aí onde residia meus temores quanto à TV Pública brasileira. Imaginei Lula concorrendo com Faustão e Gugu na domingueira... Confesso ainda que meu temor não era tanto Lula com um programa dominical na TV, afinal, além de carismático, deve ter bons causos pra contar desde sua infância próxima a Garanhuns, aos churrascos e charutos com Fidel, e os últimos afagos com Bushinho. A democracia brasileira sobreviveria a isso. O problema é um programa com o mesmo formato daquele de Chávez num governo presidido por José Serra, em caso de ele ganhar a próxima eleição... Já imaginaram o tédio da domingueira? Acho que a democracia brasileira cairia de sono, enquanto os tucanos dariam o golpe na nação.
Escrito por aecio às 14h09
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Quem não se comunica...
Não vou entrar em detalhes, pois não sou especialista. Digo apenas que acho que o governo acertou em cheio ao convidar Franklin Martins para o Ministério da Comunicação. Se no primeiro governo o setor deixou, e muito, a desejar - sobretudo com o Global Hélio Costa -, agora acho que deu um salto qualitativo estupendo. Recomendo fortemente a leitura de sua entrevista ao jornal Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u90603.shtml . Maturidade política, lucidez.
Inclusivemente, o esclarecimento que ele dá a respeito da TV Pública me deixou bastante aliviado, e otimista. Sem falar que o cara tem birra grande e declarada com Mainardi, um dos imbecis-mór da nação.
Escrito por aecio às 13h55
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