Amaralinas


Senso de aventura

Só me dei conta de que estava em Londres quase uma semana depois de minha chegada à cidade. Não que a cidade não chame a atenção até do mais desatento viajor. Bem ao contrário. É que nas primeiras noites fui tomado de um torpor tamanho, que mal lembrei de dar notícias pra minha mulher no Brasil. Um tal torpor não deveu-se a noites de boemia desenfreada no Soho ou em Covent Garden, muito menos a um consumo excessivo de pints ou à contemplação das pontes que cortam o Tâmisa. O fato é que hospedei-me num hostel que me foi recomendado por um amigo irlandês: "Êtcha, pôurra: esse preço é bom". Os irlandeses e suas peripécias financeiras: eu devia ter imaginado...

O quarto, digo cúbiculo, era um ótimo covil para asmáticos e afins, com calefação inexistente no insipiente inverno londrino e um carpete que foi limpo pela última vez quando da visita de Winston Churchill, ao condecorar uns mercenários retornados da Segunda Guerra. Um espaço em torno de três metros quadrados abrigava quatro beliches, nas quais dormiam sete marmanjos até a chegada deste que vos fala. Quatro alemães, dois australianos e um turco que se dizia radicado na Inglaterra e tinha cara e braços de Popai. Foi com espírito de companheirismo que Popai ainda me disse, logo na chegada: temos vizinhos do barulho!

Não descrevo as sete noites que se seguiram em respeito aos olfatos, ouvidos e pudores das criaturas inocentes que desantentamente possam acessar este blog. Direi apenas que os alemães pareciam estar na cidade trabalhando na construção civil, a julgar pela sujeira das roupas e das butinas. Não duvido que à noite não se banhassem após chegarem do serviço, quando se punham a beber e fumar e conversar e gargalhar barbaramente até às dez horas - horário em que o bar do hostel britanicamente fechava todos os dias. Aí então, no "frescor" da noite e no apagar das luzes, sucedia uma emissão feroz de gases letais provindos de orifícios variados. Pela manhã e pelo resto do dia a minha cabeça ficava enxarcada, o nariz em náuseas e o juízo desatinado. Tais sensações me acompanharam durante os sete dias em que tive o prazer de dividir o quarto com os bárbaros-germânicos.

Ao relatar os contratempos da hospedagem ao meu amigo irlandês, ele se riu ao telefone e arrematou irônico, num sotaque que só um renomado sociólodo do Azerbaijão radicado em Intermares saberia verter para texto: "Eh, depois dos trinta não se tem mais o mesmo senso de aventura".



Escrito por aecio às 20h47
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Dor do mundo

Para a maioria dos pernambucanos, Tabira é o fim de uma linha de ônibus da Progresso. Mas pode também ser o começo, dependendo do viajor!

Um dia o sertanejo foi parar por puro acaso na beira d'água. Desses acasos que não entram nas previsões de fim de ano dos astrólogos. Foi ficando, ficando, conhecendo as gentes, enredando-se pelos odores da cidade. Gostou tanto de morar numa cidade que rebenta no Atlântico, que fez planos de um dia ver como era no outro lado. Não bastava viajar a passeio, tinha que fixar morada, conhecer o próprio país pelo caminho inverso, de fora pra dentro, e não de dentro dos rincões do sertão pro mar, como fizera pelas janelas do Tabira-Recife. Como quem quer ver a combinação de cores e figuras que ficam de fora do caleidoscópio. 

Virou "gente de formação", como a mãe costumava reverenciar quem obtinha canudo universitário. Ao cabo de uns dez anos tinha experimentado sofrimento e felicidade suficientes para saber que o Recife é a cidade do seu coração. Talvez por isso, foi atrás do ganha-pão em João Pessoa. E ali permanecia na beira d'água, de olho no além-mar. Engraçou-se de uma galega de água doce, que lhe deu as chaves da cidade e outras cositas mas. Deu-lhe até uma galega de água salgada. O sertanejo já tinha mais do que planejara. Ou não...

Faltava os planos do além-mar.

Depois de uns quinze anos de aporia, ocorreu-lhe a aventura da Europa. Aporia de sertanejo não tem remendo ou acabamento; semelha cio de moça de família que caiu em perdição. Dor e gozo sem volta. O sertanejo ensaia agora os primeiros passos na gramática da vida despatriada, junto com suas duas galegas. No entanto do estrangeiramento, acomete-lhe novamente uma fome sertaneja: fome da mundanidade do devir.

Para a maioria dos passageiros, Londres pode ser o fim da linha para quem voa do Recife pela TAP. Mas pode também ser o começo, dependendo do viajor!



Escrito por aecio às 15h57
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