Dor do mundo
Para a maioria dos pernambucanos, Tabira é o fim de uma linha de ônibus da Progresso. Mas pode também ser o começo, dependendo do viajor!
Um dia o sertanejo foi parar por puro acaso na beira d'água. Desses acasos que não entram nas previsões de fim de ano dos astrólogos. Foi ficando, ficando, conhecendo as gentes, enredando-se pelos odores da cidade. Gostou tanto de morar numa cidade que rebenta no Atlântico, que fez planos de um dia ver como era no outro lado. Não bastava viajar a passeio, tinha que fixar morada, conhecer o próprio país pelo caminho inverso, de fora pra dentro, e não de dentro dos rincões do sertão pro mar, como fizera pelas janelas do Tabira-Recife. Como quem quer ver a combinação de cores e figuras que ficam de fora do caleidoscópio.
Virou "gente de formação", como a mãe costumava reverenciar quem obtinha canudo universitário. Ao cabo de uns dez anos tinha experimentado sofrimento e felicidade suficientes para saber que o Recife é a cidade do seu coração. Talvez por isso, foi atrás do ganha-pão em João Pessoa. E ali permanecia na beira d'água, de olho no além-mar. Engraçou-se de uma galega de água doce, que lhe deu as chaves da cidade e outras cositas mas. Deu-lhe até uma galega de água salgada. O sertanejo já tinha mais do que planejara. Ou não...
Faltava os planos do além-mar.
Depois de uns quinze anos de aporia, ocorreu-lhe a aventura da Europa. Aporia de sertanejo não tem remendo ou acabamento; semelha cio de moça de família que caiu em perdição. Dor e gozo sem volta. O sertanejo ensaia agora os primeiros passos na gramática da vida despatriada, junto com suas duas galegas. No entanto do estrangeiramento, acomete-lhe novamente uma fome sertaneja: fome da mundanidade do devir.
Para a maioria dos passageiros, Londres pode ser o fim da linha para quem voa do Recife pela TAP. Mas pode também ser o começo, dependendo do viajor!
Escrito por aecio às 15h57
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