As legítimas (parte I)
As socialites brasileiras devem estar furiosas com as últimas tendências da moda londrina. Ao invés do glamour geralmente associado à moda européia, a onda do politicamente correto tomou conta de tudo por aqui. Desde os rótulos de iogurte, macarrão e chá até os produtos de limpeza e higiene pessoal, o in é consumir produtos orgânicos. No campo da moda não é diferente. Tem até botox vendendo a ilusão de um sorriso orgânico. Em pleno inverno europeu, a era dos chapéus de pena e dos casacos de pele de onça ou de lã está em vias de extinção. E o pior, se o assunto é moda brasileira, a palavra Daslu é absolutamente desconhecida do repertório das socialites londrinas. A Daspu, sim, parece propiciar um prazer mais orgânico.
O cool da moda londrina é, acreditem, calçar sandálias Havaianas. A moda resistiu ao fim do verão e adentrou o inverno. Das colunas sociais aos metrôs, dos círculos intelectualizados aos tradicionais ônibus londrinos não raro se vê os nativos calçando as legítimas. O típico homem londrino, por exemplo, é aquele cara que quer deixar claro que é bastante distinto da massa de imigrantes que ocupa sua cidade. Contrariando as expectativas, ele é magro, veste calça jeans, camiseta básica e casaco leve, usa uma barba rala e uns óculos estilo Andy Warhol. E, para humilhação dos bárbaros migrantes ávidos por sobretudos pesados e felpudos e sapatos de couro de jacaré, complementa o vestuário calçando Havaianas, mesmo num frio de sete, oito graus.
Durante a adolescência no sertão, irritava-me quando minha mãe trazia do supermercado um par de sandálias Havaianas. Diante das economias da família, restava-me invejar os chinelos Rider, Olympikus e Katina Surf que meus amigos ostentavam. Usar Havaianas era humilhação, um sinal de que o sujeito nascera fadado ao fracasso.
Escrito por aecio às 20h38
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As legítimas (parte II)
Mais tarde, estudante universitário no Recife, percebi o quão burguesa era a minha inveja dos amigos que usavam chinelos 'de marca'. Nos tempos de graduação usar Havainas era símbolo de comportamento de esquerda, espírito crítico e boêmio. Não bastava beber em botecos insalubres, que serviam cerveja invariavelmente quente, sem tira-gosto e que tinham sinucas descompensadas. O sujeito que não calçasse Havaianas, daquelas azul e branco, jamais se tornaria um intelectual orgânico. E então tornei-me usuário das legítimas.
Agora, entretanto, causa-me certo desconforto a perspectiva de que o charme da moda londrina seja as sandálias Havaianas. Talvez um protecionismo antiquado, um ciúme do estilo de vida do brasileiro-pseudo-esquerdista-boêmio. Porém, deparei com indícios de que o espírito crítico não morreu aqui na terra que pariu o neoliberalismo. Certo dia, ao entrar na biblioteca da universidade, sou interpelado por um militante do movimento estudantil. A princípio vi nele o perfil do londrino típico que acabei de descrever, mas a boina estilo Guevara e a barba estilo Lula-anos80 me trouxeram algum alívio. Leio o panfleto que ele me entrega e percebo que as palavras de ordem são universais, o rosário de demandas do movimento estudantil não conhece barreiras. Pela libertação da Palestina, do Iraque e do Líbano; um basta à privatização do ensino público; fim das taxas nas universidades britânicas; abaixo o governo neoliberal (ou será trabalhista) que aí está; punição aos assassinos do brasileiro morto no metrô... E por aí vai.
Quando resolvo entrar na biblioteca e estou prestes a parabenizar o militante pela manutenção do senso crítico, olho involuntariamente para os seus pés. Pra quê, meu Deus! O mundo é melhor quando preservamos certas ilusões. Estava lá, com todas as letras estampadas nas tiras de suas sandálias: H-A-V-A-I-A-N-A-S. E daquelas com bandeirinha do Brasil! Entro na biblioteca furioso, à cata de um livro de Marcuse ou Adorno para curar a decepção. Mas aquela imagem me impregnou durante todo o dia. Eu não consegui me livrar da sensação de que estava dentro de um livro de Adorno.
Cheguei em casa árido com a minha mulher. Durante a madrugada, ela me acordou dizendo que eu estava delirando durante o sono, balbuciando aos sobressaltos termos abstrusos como mundo totalmente administrado, dessublimação repressiva, homem unidimensional, pensamento único e outros conceitos de ocultismo. Depois dessa experiência passei a partilhar com as socialites brasileiras do desconforto com o sucesso das Havaianas na Europa. Descobri que na era do politicamento correto, usar Havaianas com bandeirinha do Brasil é, ao menos entre os jovens militantes britânicos, sinônimo de intelectual orgânico. Resta saber se suas sandálias são as legítimas.
Escrito por aecio às 20h27
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