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Economia doméstica (Parte I)
Viver no primeiro mundo é mesmo uma aula de racionalização. Até a despesa extra do mês, aquela grana torrada, para desespero da senhôra sua esposa, com farras, cerveja, livros, discos etc., pois bem, esse tipo de diversão sofre sérias restrições orçamentárias, ao menos entre os bárbaros terceiro-mundistas. Não só restrição, como tem que passar por rigoroso planejamento prévio.
Imagine o sujeito planejar que daqui há um mês vai para o pub tal tomar cinco ou seis pints (transgredindo a média de quatro, que indica que o sujeito é alcoólatra, de acordo com os padrões britânicos), vai comer o sanduíche tal, sairá invariavelmente às onze da noite do bar, pegará o ônibus tal, que passará inapelavelmente a tal hora... Chega! Farra planejada não é farra. É o fim de qualquer possibilidade de transgressão do cotidiano.
Aqui em casa, por exemplo, já se sabe qual será a farra de fevereiro desde a primeira semana de janeiro. Após uma série de reuniões ao estilo PT com a minha mulher (reuniões estilo anos 80, não as de hoje, em que só se discute distribuição de cargos no erário), deliberei acerca da grande transgressão orçamentária do próximo mês. Tínhamos duas opções. A primeira, ver a exposição de Cézanne em National Gallery, pelo preço de 15 balas por cabeça, ou seja, trintinha para o casal. A segunda, ver Brasil x Portugal, por trintinha, no ingresso individual mais barato.
Argumentei que não tinha sentido pagar para ver uma exposição quando todos os museus da cidade são gratuitos, com exceção das exposições temporárias, como é o caso da de Cézanne. Muito melhor ir ver Picasso e Monet, de graça, na mesma National Gallery, e com uma angular ainda mais privilegiada de Trafalgar Square. Minha mulher assentiu, com certa resignação de Amélia, aquela que fica em casa enquanto o marido vai pro campo de futebol.
Devo dizer que meu interesse não é tanto o jogo em si, mas a possibilidade de conhecer o Emirates Stadium. Não fosse isso, eu certamente me pouparia de ver Felipão, aos berros e insano à beira do gramado, dando mostras de que, se o argumento evolucionista é verdadeiro, por tabela existe involução, e ele é a prova cabal de que podemos regredir e nos reaproximar dos ancestrais do homo-sapiens.
Eu ansiava também por reviver aquele friozinho na barriga que todo aficionado por futebol experimenta ao ir comprar o ingresso pro jogo do seu clube ou da sua seleção. O sujeito começa a entrar no clima da partida já na fila de compra dos ingressos, ouvindo a resenha esportiva no rádio, comentando a possível escalação do time, o trio de arbitragem, as condições do gramado, a lesão do atacante...
Escrito por aecio às 22h10
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Economia doméstica (Parte II)
Pois bem, quando visitei o site do Arsenal para tomar informações sobre a compra de ingressos, veio a primeira decepção: os ingressos são vendidos com um mês de antecedência. Os dois primeiros dias para os sócios do clube, depois a ralé se refestela com o que sobra. Até aí tudo bem, pensei, ainda que não seja às vésperas do jogo, ao menos devo encontrar algum brasileiro ilegal na fila da compra de ingressos, poderemos conversar sobre a saudade da terrinha, orgulharmo-nos de ter o melhor futebol do mundo, tomar uma no boteco do clube, com sorte até encontrar um alvirrubro que se aventurasse comigo na perigosa travessia em que se transformou o metrô de Londres para brasileiros desavisados. Segunda decepção: só se compra ingresso por telefone ou internet. Nenhuma filinha, nada. Cambista, então, é um objeto inexistente no repertório futebolístico local.
O ingresso é creditado no cartão do sócio, que só precisa imprimir o comprovante da compra e mostrá-lo na entrada do estádio. Não-sócio se senta no trono do apartamento, com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando o ingresso chegar pelo correio da realeza. Após dois cliques e o débito no cartão de crédito, minha euforia pela farra de fevereiro deu lugar a um sentimento de impotência diante de tanta racionalização.
Desconfio que aja algo muito errado com um futebol cujos cartolas são árabes ou russos, que não tem fila para compra de ingressos, cambista, bagunça na entrada do estádio, e cujo ingresso se adquire com um mês de antecedência. E, acreditem, pela primeira vez tive uma pena inexplicável dos tricolores pernambucanos. É que o ingresso mais barato para jogos nível B (amistosos internacionais e campeonatos europeus) é trintinha, como já disse, e os ingressos para jogos nível A (competições nacionais) variam de 45 a 90 balas. Melhor dito, torcedor do Santa Cruz não freqüentaria estádio de futebol na terra da rainha.
Escrito por aecio às 22h07
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Nélson Rodrigues explica
Deu no The Sunday Times de 07 de janeiro que foi encontrada uma prova irrefutável de que Sigmund Freud, especialista em experiências sexuais alheias e auto-denominado monogâmico clássico, viveu um ménage à trois durante nada menos que quarenta e poucos anos. E o mais chocante, o triângulo se dava entre ele, a mulher e e e ... a cunhada!
Em 1896, Minna, irmã de Martha, esposa de Sigmund há dez anos, mudou-se para a residência dos Freud em Viena, tendo acompanhado o casal e filhos para Londres na década de 1930, quando da fuga dos rigores do nazismo. Minna viveu com os Freud até a morte de Sigmund, em 1939, quando este foi abatido por um câncer. Sempre se comentou à boca miúda o romance entre Sigmund e a cunhada, e ela própria teria confessado a Jung – pupilo-inimigo do cunhado-amante – que engravidara em 1900 do pai dos filhos da irmã e da psicanálise. Sigmund sempre alimentou a imagem de marido exemplar, e atribuía os comentários maldosos acerca de sua relação com a cunhada ao despeito e vilania de Jung, este, como se sabe, um galinha renomado e inveterado.
A prova irrefutável surgiu, para desespero dos biógrafos de Sigmund que sempre se ocuparam em manter a imagem do marido exemplar e analista isento das manias sexuais, como achado da pesquisa atualmente desenvolvida pelo escritor alemão Franz Maciejewski. Em seu dizer, a descoberta se deu por acaso. Ele sabia de uma estadia de Sigmund no Hotel Schweizerhaus, nos alpes suíços, no verão de 1898, através de um cartão postal que o mesmo mandara para a sua esposa Martha. Em visita rotineira de coleta de dados, o escritor alemão descobriu surpreso que nos registros do hotel constava a estadia de um fim de semana em nome de “Dr Sigmund Freud u Frau”, o que em português castiço quer dizer “Dr. Sigmund Freud e Esposa”. Mas como, perguntou-se Maciejewski, e o cartão postal que ele enviou para Martha na mesma data? Ao checar o nome da esposa de Sigmund nos registros do hotel estava lá o nome da cunhada Minna.
Desconsolado, Peter Gay, o mais renomado biógrafo de Sigmund, limitou-se a comentar o seguinte a respeito do achado de Maciejewski: “Este livro (de hospedagem do hotel) demonstra ser muito provável que eles dormiram juntos”. Em tom mais realista, Peter Swales, historiador britânico, afirmou que a descoberta torna Freud muito mais interessante do ponto de vista do ser humano e suas contradições; por outro lado, torna mais dúbia sua posição de psicanalista e estudioso da sexualidade, na medida em que não foi honesto com relação à sua própria vida sexual.
Os atuais donos do Hotel Schweizerhaus, que não têm nada a ver com isso, não perderam tempo e já deram um jeito de fetichizar a situação. Na porta do quarto em que Sigmund e Minna se hospedaram no verão de 1898 está afixado o novo nome do recinto: “The Freud Room”.
Pobre Sigmund: toda uma vida dedicada a construir uma biografia irretocável, e no fim das contas foi vítima do infalível prognóstico do dramaturgo e especialista em libido humana, Nélson Rodrigues. Nas altas rodas intelectuais, quando o assunto é sexualidade, já não se usa o agora em descrédito “Freud explica”. Ao invés, o termo do momento é "Nélson Rodrigues explica", pois este grande analista da vida sexual dos subúrbios cariocas já afirmou desde muito que a cunhada é a perdição do homem.
Escrito por aecio às 19h19
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