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Transpiração zero
Não está sendo fácil convencer a minha mulher de que meu interesse em ir ver Brasil v Portugal é puramente futebolístico, e que não há nenhuma farra num pub por trás do meu assanhamento com o jogo. Pra piorar a situação, inventei de ler pra ela o regulamento da administração do estádio para os torcedores, que vem impresso no verso do ingresso.
Logo no início, ela perguntou que negócio era esse de ir prum lugar em que não se pode capturar imagem ou som. “Quer dizer então que tu num tem como me provar que foi mesmo pro campo!”, resmungou, e arrematou que nem nas igrejas de Ouro Preto existe mais isso. Mais adiante, li a cláusula que obriga o torcedor a permanecer em seu assento durante todo o jogo, sob pena de ser expulso do estádio se for pego circulando pela arquibancada. Irônica, ela perguntou se eu tava indo pruma partida de futebol ou de xadrez.
Por fim, li a cláusula que estabelece que o ingresso não pode ser repassado a terceiros sem autorização escrita prévia do clube. Ela então concluiu que essa estória do jogo tá mesmo muito mal contada. Deu agora de encafifar que estou indo na verdade prum espetáculo de balé. E olhe que nem comentei com ela o que um colega londrino me disse: a cláusula que vedava ao torcedor o direito de suar no estádio foi finalmente retirada, pois descobriram que ao menos num inverno com temperatura entre -1 e 4 graus ela é desnecessária.

Escrito por aecio às 22h39
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Time de Primeira
Time de primeira é outra coisa. Além de cuidar exemplarmente do bem-estar físico, emocional, financeiro e psicológico dos jogadores, o Aristocrático da rua da Angustura passou a investir no bem-estar dos seus torcedores. A diretoria iniciou um projeto de incentivo aos quadros mais destacados de sua torcida, em termos intelectuais e profissionais. A idéia é valorizar aqueles torcedores com capacidade de agregar valor ao nome do clube na opinião pública nacional e internacional, e sobretudo difundir os valores e tradições da nação alvirrubra mundo afora. Tem-se priorizado aqueles torcedores que estão de mudança pro além-mar, pois que estes podem observar os amistosos da seleção brasileira e ver, dentre os tantos jogadores da canarinha que estão batendo à porta do timbuzinho clamando por uma vaga, quem de fato está em condições de vestir o manto sagrado.
Abaixo uma das demonstrações da execução do inovador projeto. No fim da temporada passada, a diretoria designou três dos seus melhores atletas para prestigiar o embarque de um dos torcedores que reune os requisitos acima elencados. A foto, não obstante o problema de enquadramento ocasionado pelo nervosismo da fotógrafa diante de momento tão histórico, foi tirada no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em fins de outubro passado. Eis um belo exemplo a ser seguido por outros clubes.

Da esquerda para a direita: Kuki (O Inigualável), o torcedor prestigiado pelos atletas, Eduardo (então goleiro do time), Quebrado (presidente da torcida organizada da Torre-Madalena) e Nildo (cracasso de bola)
Foto: Fotógrafa oficial da torcida organizada da Torre-Madalena
Escrito por aecio às 19h01
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Sinal dos tempos

Pela manhã, ao brechar o quintal do vizinho, achei que estivesse no sul do Brasil. Durante o dia, ao receber o ingresso para Brasil v Portugal pelo correio da realeza, caí na real. Dei-me conta de que não, eu não podia estar no Brasil, afinal a seleção não joga em nosso país.
Escrito por aecio às 18h40
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FLASHBACK
Maternal
Na adolescência, Zandro Charles era a promessa da turma. Tentávamos a sorte na monotonia das salas de aula, e ele atuava como guarda-meta do juvenil do Náutico. Apesar de tricolor, conhecia o caminho da glória. Nutríamos a esperança de ter um amigo famoso, desses jogadores negociados para a Europa, carro importado, Marias Gasolinas e tal e tal... Babávamos de inveja. Ocorre que o melhor momento da curta carreira de Zandro Charles no Aristocrático da rua da Angustura não foi como goleiro, e sim como tiete.
No início da década de 1990 o São Paulo viajou ao Recife para enfrentar o Sport. Não era qualquer São Paulo que ia jogar, era “o” São Paulo: o time de Raí, Palhinha e companhia, bi-campeão mundial, comandado por ninguém menos que Telê Santana. Pois bem, na véspera do jogo o tricolor paulista foi treinar no relvado da Conselheiro Rosa e Silva. O treino dos paulistas seria logo depois do treino do juvenil do Náutico. Entre um treino e outro, tietagem dos garotos alvirrubros. Todos se esforçam para arrancar alguma lembrança do memorável time. Com oportunismo de centroavante, o arqueiro Zandro Charles consegue que os jogadores do São Paulo e Telê em carne e osso autografem a sua camiseta branca. Momento histórico. Lembrança para se conservar em moldura.
No dia seguinte, Zandro Charles sai de casa para o treino logo cedinho. Dona Edileuza, sua mãe, vai arrumar o quarto do filho pródigo. Nada deteria o futuro do filho-craque. Sonhos de viagem para o além-mar, entrevistas para a TV como mãe do guarda-meta da Canarinha, restaurantes luxuosos... Nisso, encontra a camiseta repleta de inscrições de nomes em cima da cama. Desapontamento. É ágil na proteção ao filho. No tanque de lavar, ao enxaguar a camiseta com força e dedicação maternais, xingava, aporrinhada, como querendo livrá-lo das más influências: ‘esses amigos de Zandro Charles...!’

Escrito por aecio às 10h29
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