Adoção ilegal

Encontrada, em estado picolético, num parque londrino. Tentei trazê-la pra casa com minha mulher, mas logo fomos presos. Desconfiaram que a formosura, de quase quatro meses, não poderia ser filha de um caboclo com feições de árabe. Tentei alegar que era filha adotiva, mas meu inglês macarrônico não impediu que eu fosse parar no chilindró.
Escrito por aecio às 16h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
The Flash
Rapidinha 1
Despatriamento tem disso: até as músicas da terrinha se escuta pela performance dos outros. Quem não conhece ou tem o primeiro registro de Bossa Nova executado por músicos de jazz norte-americanos, não sabe o que está perdendo. O disco é de 1962 (Verve), executado por Stan Getz e Charlie Byrd. Os cabras tocam como se fossem brasileiros, ou será exatamente porque tocam como músicos de jazz norte-americanos que o disco é excelente. E o encarte dá uma boa panorâmica do que representou a Bossa Nova para o jazz norte-americano de início dos 60. Tá lá, numa rara modéstia norte-americana: todo músico de jazz que se prezasse gravou ou quis gravar um disco de Bossa Nova nos anos 1960. E o nome do disco é sugestivo: ‘Jazz Samba’. Definição melhor não há.
Rapidinha 2
Pelo que vi de minhas parcas andanças pelas lojas de disco e livrarias londrinas, disco do Brasil só do velho Tom, ou melhor, ‘from the composer of “Desafinado”’, como dizem os encartes. Fora isso, só estar numa loja de discos e ouvir, do outro lado da rua, em plena Charing Cross, em altíssimo e bom som, uma música de Ana Carolina. Os britânicos são assim afinados com a "fina-flor" da música brasileira contemporânea. Ao ouvir a moça lembrei de um amigo que viu que sua relação com a então manceba começava a declinar quando ela lhe presenteou com um disco de Ana Carolina. Cabra chato, não sabe que a manceba é que tinha um gosto refinado feito os londrinos.
Rapidinha 3
Procuro por uns audio-books nas livrarias e noto pouquíssima variação nas prateleiras: Shakespeare, Beckett, Woolf, Austen, Joyce, Dickens. Quando muito, muda a seqüência: Dickens, Joyce, Austen, Woolf, Beckett, Shakespeare. Pergunto-me se os caras não têm escritor contemporâneo. Ou, por outra, porque não alguém norte-americano do passado ou do presente, ou mesmo algum europeu. Até que entro numa livraria que satisfaz a minha curiosidade. Tava lá a lista de sempre, com uma pérola no final: Shakespeare, Beckett, Woolf, Austen, Joyce, Dickens, e ..... Me recuso a dizer o nome. Bestificado, me volto para conferir, já refeito da náusea, e tá lá o nome ....., com o subtítulo que mais parece a Besta-Fera rindo um riso sinistro: ‘from the same author of the internationally well-known “The Alchemist”’. Não bastasse os franceses, do alto de sua cultura literária, conferirem o prêmio máximo de sua literatura a ....., vem agora os britânicos colocando-o ao lado de um Shakespeare e de um Beckett.
Escrito por aecio às 16h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|