Brasil v Portugal (Parte I)
Estou na parada esperando o ônibus que me levaria ao Emirates Stadium, chega um magrinho, barbudo, com cara de latino-americano ou árabe (dá no mesmo) consultando o itinerário das linhas. Brasileiro de primeira viagem, pensei, no alto de meus quatro meses de além-mar. O sujeito vestia um moletom verde e amarelo com motivos da seleção brasileira. Distintivo da CBF no peito, BRASIL nas costas. Só podia ir pro estádio também, reflexionei. Dito e feito. Entramos no ônibus, bate a fraqueza de falar a língua-mãe: “pela camisa, vejo que estás indo pro estádio também”. O sujeito, com cara de abobalhado: “Sorry”. Repito, pensando que o sujeito tava de gozação, ao que ele novamente “Sorry”. Dou-me conta do mico, desculpo-me em inglês e recolho-me à minha insignificância.
O trajeto até o estádio não dura mais que quinze minutos. Tempo suficiente para o ônibus apinhar de gente indo ver Brasil e Portugal. A ampla maioria era de brasileiros, outras gentes que iam torcer pro Brasil (aí incluído namorado de brasileira, namorada de brasileiro), e um ou dois portugueses. A situação só não foi mais estranha do que a que vivenciei certa vez em Fortaleza, ao ir ver um jogo da extinta Copa dos Campeões entre Flamengo e São Caetano. O ônibus tava lotado de rubro-negros com bandeira e camisa do time da Gávea. Quando entrei, pensei que estivesse num ônibus no Rio. Deu-se o mesmo aqui. O ônibus era verde e amarelo, as ruas que dão pro estádio idem. A seleção brasileira é, sem dúvida, uma marca global.
Se no Brasil há uma rede Globo contribuindo para que os nativos em Fortaleza vistam a camisa do Flamengo e se esfalfem em pleno Castelão por um time do Rio, o que faz os britânicos e gringos de toda sorte (inclusive, pasmem, judeus e árabes), vestirem a camisa do Brasil e encararem um calor de 0 grau pra ver a camisa de Dunga, digo, a pelada do Brasil com Portugal? Desde que cheguei aqui, tenho visto sempre na rua pessoas com casacos verde e amarelo e o nome do Brasil nas costas, ou as indefectíveis Havaianas com bandeirinha do Brasil – começo a desconfiar que não são todos brasileiros. Os jornais não raro noticiam shows de banda brasileira. Como disse Gil no Recife, o Brasil tá na moda. Ao menos em Londres, certamente.
No estádio, o espetáculo parecia encenado pro Brasil. Desde os gringos, sempre eles, perguntando se Kaká, Ronaldinho, Robinho, Adriano vão jogar, até o serviço de som do estádio, que invariavelmente tocava “Mas que nada”, de Jorge Ben (eu sou das antiga), numa versão techno. Aos portugueses só restava se resignar e ensaiar passos de samba - no final da partida, eles sequer sabiam cantar a música portuguesa que a administração do estádio fez tocar, como retaliação à derrota do Brasil.
O fato é que a torcida brasileira compareceu em maior número, embora a de Portugal tenha colocado as manguinhas de fora a partir dos 37, 38 do segundo tempo. Quanto aos gringos, todos foram ver o Brasil jogar. Alguns ingleses, é verdade, deviam estar se aproveitando do fato de serem sócios do Arsenal, morarem perto do estádio, não desperdiçarem mais uma oportunidade de aplaudir Gilberto Silva e xingar Cristiano Ronaldo, ou simplesmente freqüentarem o estádio pelo prazer de ver um jogo de futebol – afinal, eles são tarados pelo ludopédio. (Engraçado ver como se riam das ‘olas’ que a torcida puxava – vai ver nos jogos do campeonato inglês isso não existe.) Mas mesmo estes não escondiam a predileção pela seleção brasileira. Os ingressos foram esgotados, o que quer dizer que não havia 60 mil brasileiros e portugueses no campo.
Escrito por aecio às 20h29
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Brasil v Portugal (Parte II)
Como uma roupa de marca que se compra e, ao chegar em casa, percebe-se que tem um defeito de fabricação, a seleção frustrou os seus consumidores. Os gringos não deram muita bola pra isso: bastou o primeiro gol de Portugal e todo mundo começa a torcer pelos lusitanos (Cristiano Ronaldo, obviamente, já havia sido substituído). Quanto aos brasileiros, alguns ainda se esfalfavam na arquibancada exigindo garra do time, e respondendo aos torcedores portugueses que não faz mal, nós somos penta e vocês nada. Esses parecem não ter se dado conta ainda da lógica que envolve a seleção. Quanto a mim, desde o início disse que minha curiosidade consistia em conhecer o estádio do Arsenal e ver a lógica de organização do futebol britânico.
Não preciso comentar a organização do estádio, do jogo, do acesso ao estádio, da saída etc., pois vão me chamar de aculturado, provinciano. Quem já viu jogo na Europa sabe do que estou falando. Mas o que me impressionou foi ver o jogo tão de perto. Nem no alambrado do relvado do Eládio de Barros Carvalho – onde dá pra segurar a bandeira do auxiliar de arbitragem - dá pra ver o jogo tão de perto. E se o sujeito perder um lance, não precisa esperar o Globo Esporte do dia seguinte: os dois hiper-telões repetem o lance com exclusividade pra você – vida de juiz não é fácil no primeiro mundo.
Em tempo: na terça jogaram, além de Brasil v Portugal, Gana v Nigéria, Coréia do Sul v Dinamarca, Grécia v não sei quem. Todos os jogos em Londres, no mesmo horário, nenhum deles transmitido pelas TVs locais. Só o do Brasil lotou. Eis o futebol globalizado e sua lógica empresarial desterritorializada.
E pra não dizer que não falei de flores: na revista luxuosa a respeito da história dos confrontos entre Brasil e Portugal que a administração do estádio distribuiu para os torcedores, o presidente da CBF diz que as boas relações entre os dois países começaram desde que Álvares Cabral cruzou o Atlântico!
Escrito por aecio às 20h28
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Bad news
A vida como ela é
Conheci um sujeito num congresso de ciências sociais, em Caxambu-MG, em outubro de 2003. Falava de novas tecnologias e sociabilidades. Para alguns, uma promessa acadêmica. Soube então que fazia doutorado em Londres. Pois bem, ontem me disseram que o sujeito terminou a tese e depositou, em 2005. Saiu serelepemente a pedalar pelas ruas londrinas para fazer as últimas fotos de recordação da cidade, enquanto o dia da defesa da tese não chegava. Foi vitimado de morte por um acidente de trânsito. Andar de bicicleta em Londres pode ser tão romântico quanto um certo ideal de vida flâneur sugere, mas também pode ser tão perigoso quanto pedalar na Agamenon Magalhães, em pleno horário de pico. Aliás, os ciclistas estão entre as vítimas mais corriqueiras de assalto na cidade.
Gripe aviária
Onda de boatos e inépcia governamental envolvendo a gripe aviária na Inglaterra. Milhares de perus e frangos abatidos. Ao mesmo tempo em que dizem que não há motivo para pânico, dizem que o risco de uma crise sem precedentes no setor é eminente. Na dúvida, retiramos o galináceo da dieta de casa.
Animal laborans
Início de mês: hora de conferir o salário nosso de cada mês, quanto resta da bolsa, o salário da manceba. Retirado o dinheiro pra moradia, alimentação, vestuário para a cria e as taxas que ajudam a financiar as bombinhas no Iraque, fica nem pro pint do fim de semana. É o milagre da subtração!
Escrito por aecio às 19h00
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