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serra o costa

Antes de ler a entrevista de Franklin Martins (de que falo no post abaixo) à FSP, estava com as duas orelhas em pé com respeito ao tema da TV Pública proposta pelo governo. E quando saiu a notícia da crise diplomática instaurada pelo Global Hélio Costa, achei que a coisa era mesmo ruim. É curioso ver o embaixador venezuelano no Brasil dizer que o Global não foi nada diplomático ao criticar o modelo de TV estatal de seu país, enquanto ele, que é quem é diplomata, foi ainda menos diplomático. Fica a impressão de que não há anjo na história entre os dois - afinal, quem vai sair publicamente em defesa de Hélio Costa...
De resto, é preciso muito torneio de oratória para contornar a evidência de que a estatal venezuelana dedica-se a erigir o personalismo a la Chávez. O que dizer de seu programa dominical, que deve ter tanto ou mais tempo que o glorioso programa dominical de Gugu Liberato ou Sílvio Santos? E era aí onde residia meus temores quanto à TV Pública brasileira. Imaginei Lula concorrendo com Faustão e Gugu na domingueira... Confesso ainda que meu temor não era tanto Lula com um programa dominical na TV, afinal, além de carismático, deve ter bons causos pra contar desde sua infância próxima a Garanhuns, aos churrascos e charutos com Fidel, e os últimos afagos com Bushinho. A democracia brasileira sobreviveria a isso. O problema é um programa com o mesmo formato daquele de Chávez num governo presidido por José Serra, em caso de ele ganhar a próxima eleição... Já imaginaram o tédio da domingueira? Acho que a democracia brasileira cairia de sono, enquanto os tucanos dariam o golpe na nação.
Escrito por aecio às 14h09
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Quem não se comunica...
Não vou entrar em detalhes, pois não sou especialista. Digo apenas que acho que o governo acertou em cheio ao convidar Franklin Martins para o Ministério da Comunicação. Se no primeiro governo o setor deixou, e muito, a desejar - sobretudo com o Global Hélio Costa -, agora acho que deu um salto qualitativo estupendo. Recomendo fortemente a leitura de sua entrevista ao jornal Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u90603.shtml . Maturidade política, lucidez.
Inclusivemente, o esclarecimento que ele dá a respeito da TV Pública me deixou bastante aliviado, e otimista. Sem falar que o cara tem birra grande e declarada com Mainardi, um dos imbecis-mór da nação.
Escrito por aecio às 13h55
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Terra Pernambucólica (Episódio de hoje: A vingança)
Notícia divulgada pela AGÊNCIA ESTADO
22/03/2007 - 04h41 Moradores de rua queimados no agreste pernambucano
Um adolescente de 15 anos confessou ter ateado fogo em dois moradores de rua que dormiam na varanda de uma casa abandonada, na madrugada desta quarta-feira, em Garanhuns, no agreste pernambucano. Segundo a polícia, o ato [foi] cometido por vingança. O jovem agressor queria revidar a surra que tomou, durante uma briga com outros dois adolescentes, que costumam dormir naquele local. O jovem será encaminhado a uma instituição correcional.
O adolescente agressor jogou gasolina sobre as vítimas e, em seguida, ateou fogo. Com queimaduras graves, por todo o corpo estão internados no Hospital da Restauração, [no] Recife, um menino de rua de 16 anos e Delmiro Martins, de 38, um artesão que faz e vende bijuterias. A polícia apurou que ele havia acaba[do] de chegar a Garanhuns. Além deles outras duas pessoas dormiam naquela varanda, cobertas, como eles, por material altamente inflamável, mas não foram atingidas pelas chamas.
Escrito por aecio às 10h27
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Polissêmica
"Dizei-me, de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer?
Resposta: de si mesmo.
Então, também vou falar de mim."
(Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo)
Escrito por aecio às 16h07
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Terra Recífilis (Parte I)
Abaixo, relato de uma amiga recifense, cientista política e pesquisadora social, datado de 19 de março de 2007:
"Oi Pessoal,
Só agora tenho tempo e equilíbrio emocional para comunicar a vcs e partilhar como serviço público que sei que a Internet se presta a ser, aconteceu comigo, repassem aos conhecidos, amigos e parentes para que sirva de alerta:
Fato: estávamos voltando de uma inocente saída para relaxar, numa 6ª feira normal (17/03/07) às 2:00h - fui levar minha ex-cunhada em casa, em Campo Grande (bairro de Recife) quando nos deparamos com uma barricada (barreira de pedras enormes na pista) logo após uma curva, e fomos cercadas por 5 "elementos" (como são chamados os famigerados ladrões pela polícia).
Quando vi a barricada e os caras tentei passar com o carro por cima das pedras, mas sem tração nas rodas, acabei prendendo o carro nas pedras e os caras se aproximaram, pedindo celular... Como demoramos a abrir a porta um deles pegou uma das pedras (que sem exagero nenhum, era do tamanho de um monitor de computador), quebrou o vidro da porta direita, atingiu minha amiga que teve o nariz fraturado e um dente quebrado na hora. Minha mão estava na marcha do carro, também foi atingida... bem, felizmente ao pegar nossas bolsas com os celulares (que era só no que eles falavam) os caras saíram correndo, talvez pelo barulho e pela chegada de gente ao local.
Escrito por aecio às 17h36
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Terra Recífilis (Parte II)
"Bem, passado esse susto ficamos tentando socorrer o ferimento e arranjar um celular para pedir ajuda, nesse exato momento, coisa de 5 minutos passa uma viatura da polícia (aqueles carros do 190), o cara desceu e imediatamente começou a ligar para o Samu socorrer minha amiga, e eu pedi o telefone do outro motorista da viatura (que foi logo dizendo: "está sem crédito", eu disse que ligaria a cobrar... avisei a uma amiga o que estava ocorrendo e dei para minha amiga chamar o filho dela (meu sobrinho) já que estávamos perto da casa dela. Enquanto isso, simplesmente o homem que estava chamando o Samu disse: "agora vocês aguardam aí que o Samu está chegando, a ocorrência é número tal e tal...", ao que indignada eu perguntei: E o senhor vai nos deixar aqui assim neste lugar uma hora dessas depois de tudo isso??? Ele disse que era um delegado de Olinda e que estava passando ali por acaso, que estava "apenas pegando uma carona naquela viatura" e antes que eu perguntasse o nome dele, foi embora e nos deixou no local com os moradores, atônitos com a cena...
Não esperamos o Samu, meu sobrinho chegou, nos acompanhou até o Hospital da Restauração onde fomos atendidas (até de forma rápida e carinhosa, pois minha amiga é enferemeira de lá, excelentes profissionais, com solidariedade e empatia, embora as condições da emergência do HR todos nós estamos cansados de saber como é terrível). Graças a Deus estamos vivas, o que nos levaram conquistamos de volta, com certeza, quero inclusive resgatar os telefones de vocês que ficaram no chip do celular que roubaram, só não sei se reconquistaremos a paz de podermos exercer nossa tão simples liberdade de ir e vir. Fico trista de ver uma cidade como [o] Recife ter chegado a esse ponto. Soube que na noite seguinte o mesmo aconteceu em Boa Viagem, no Pina e no viaduto Joana Bezerra, ou seja, fiquem atentos, evitem sair à noite até que alguma coisa seja feita pela Segurança Pública, que espero de coração, seja mais eficaz e responsável do que o Delegou que nos deixou à míngua.
Beijos a todos a vamos adiante, que apesar de tudo, a vida é bela."
Escrito por aecio às 17h32
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Terra Recífilis II (A revolta)
Consternado com o relato, o editor do Amaralinas enviou uma pergunta a dois renomados sociólogos radicados no Brasil e que são especialistas em violência nos estádios do Recife, mormente no Arrudão. Abaixo a pergunta e as respostas:
Amaralinas: Será que perdemos o senso da gota d'água?
Sociólogo mouro radicado numa praia no litoral nordestino: Achei essa estória bem amena. Não houve morte nem estupros, os serviços públicos funcionaram dentro do possível e só roubaram celulares. É a prova cabal de que [o] Recife está melhorando seus bandidos. Quebram narizes, mas não matam. O problema do Recife é o cheiro de mijo, o resto é cotidiano. Estória boa é essa: o filho de um bancário, que foi militante antigo do movimento sindical e gente boa, rouba uma farmácia e mata um PM. Descobre-se que é membro do Comando Vermelho. Filho de classe média. O pai, desesperado, não entende o que aconteceu: "esse menino teve tudo o que queria, por que fez isso?" Disse-me, já em prantos. Está no Aníbal Bruno. A violência virou identidade no Brasil. Transbordou o copo, fuja pra João Pessoa... Pessoenses e londrinos são bem parecidos, estamos sempre perplexos com o Recife. Caro editor, ser recifense é que nem andar de bicicleta, não se esquece nunca. Quando voltar, dê uma semana, e tudo fica normal. A única coisa que você vai desejar é não morrer com um tiro na cara. E vamos vivendo.
Sociólogo da Ljubiânia radicado numa praia-tribo do litoral nordestino: Pior é Mamanguape, que nem assalto tem...
Escrito por aecio às 17h16
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FLASHBACK
O que é isso, companheiro? (Parte I)

Posso asseverar sem reservas que o meu irmão é um visionário. Quando nada, um homem que consegue ver além do seu tempo. Só hoje, repuxando da memória eventos da infância, vejo indícios desse talento nato em alguns atos protagonizados por ele. Durante a Copa de 1982, lembro de que ficamos todos - eu, meu pai e minha mãe - estupefatos com um fato curioso. O improvável leitor que teve a sorte de ver a Canarinha daquela época deve lembrar que ainda era muito comum associar-se o sentimento de nacionalidade aos posicionamentos ideológicos das pessoas. Quem torcia contra o Brasil era tachado de comunista. Num ato sem precedentes para os padrões da pequena e pacata Tabira, no sertão pernambucano, meu irmão achou de torcer justo por quem naquela Copa? O selecionado soviético! Imaginem a reação de nosso pai! Tínhamos um comunista de dez anos de idade dentro de casa.
Ciente da cautela que teria de adotar publicamente, meu irmão mantinha em sigilo sua opção ideológica. Acho mesmo que ele tinha acesso a cartilhas de comportamento camuflado da KGB. Até que um dia o subversivo foi desmascarado. Foi no jogo Brasil x União Soviética. O jogo começa equilibrado; não havia jeito de violarmos a meta do grande Dassaiev. Quem não tem Dassaiev caça com Valdir Perez. Só que o nosso goleiro caçou mesmo foi um frango por baixo das pernas que deixou a nação brasileira aflita. Tabira silenciou. Consternação geral. Fiquei irritado ao notar certo sorriso cínico incontido no canto do lábio esquerdo do meu irmão. Porém, seguindo a cartilha de comportamento camuflado da KGB, ele afetou certa consternação com o gol dos soviéticos.
Segue o jogo e o Brasil opera uma bela virada. Desde aquele dia pressenti, no auge dos meus sete anos de idade, que o Muro de Berlim cairia. Se até a meta de Dassaiev fora violada, o socialismo não conseguiria resistir às investidas do capitalismo. Foi aí que meu irmão não conteve seus ímpetos subversivos. Quando todos em casa imaginávamos as cores do gol da virada – assistimos à Copa numa gloriosa Telefunken dezesseis polegadas em preto e branco -, o meu irmão começou a avermelhar, avermelhar, avermelhar... Parecia a cor do uniforme soviético (que sabíamos pelas fotos da Placar). Em seguida, diante do olhar horrorizado e abasbacado da família, ele corre e se tranca no quarto, aos prantos. Foi muito difícil para os meus pais descobrirem que abrigavam um inimigo vermelho dentro de casa.
Confesso que admirei a ousadia de meu irmão. Na minha cabeça os anos de chumbo da ditadura não haviam acabado e ele corria risco de vida. Eu achava que vivíamos em pleno vigor da guerra fria, e o meu irmão era um agente especial soviético em plagas tabirenses. Passei a achar que o quarto dele era um aparelho subversivo e que mais dia menos dia os milicos iam baixar lá em casa. Sentia orgulho disso: não é sempre que se tem um irmão revolucionário! Porém, naquele dia, confesso que ele mais parecia Joseph K, o personagem kafkiano, aos olhos da família. Seu aparelho só possuía o catre no qual o homem-barata se punha a salvo da opressão familiar.
Durante um bom tempo silenciou-se sobre o ocorrido lá em casa. Eu imaginava que meus pais temiam tocar no assunto, sob pena de algum vizinho escutar o teor da conversa e denunciar o filho subversivo. Foram dias de aflição. Meu pai e minha mãe andavam choramingosos pelos cantos. Nada mais parecia ter sentido. Dor de pai que perde filho de morte. Até que nas Olimpíadas de 1984 meu irmão resolve torcer pela seleção brasileira de vôlei. Pensávamos que o bom senso restituíra o filho pródigo ao seio familiar. Na verdade, ele nutria a esperança vã de que a turma de Xandó, Williams, Montanaro, Bernard, Renan e Badalhoca poderia desbancar a seleção dos Estados Unidos. Só mais tarde eu viria descobrir que a União Soviética boicotara os Jogos de Los Angeles, fato que deixou meu irmão sem escolha. Confesso que naquele momento eu também já via no Tio Sam a projeção de um abominável império, um polvo pegajoso com seus tentáculos espalhados por todo o globo. Não dava para acreditar que o Brasil venceria os americanos. Mas o evento serviu para que o meu irmão voltasse a merecer os afagos dos nossos pais, afinal dera provas de nacionalismo. A cartilha de comportamento camuflado da KGB era infalível.
Escrito por aecio às 07h13
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O que é isso, companheiro? (Parte II)
Já na adolescência, precisamente no ano da queda do Muro, meu irmão voltaria a dar provas de seu comportamento vanguardista e politicamente visionário. Os parcos rendimentos da família propiciaram que ele fosse estudar na capital, em escola particular – luxo reservado a uma ínfima parcela da sociedade tabirense, quase impensável para filhos de um motorista do Departamento de Estradas e Rodagens. E lá se vai meu irmão, oriundo das classes populares carregando na bagagem os sonhos bacharelescos da classe média. As primeiras notas do boletim escolar não eram nada animadoras, vermelhas como a bandeira soviética. Ainda assim a família persistiu no ‘paitrocínio’.
Acreditava-se, eu sobretudo, que meu irmão andava envolvido em atividades estudantis, negócio de rebeldia socialista, essas coisas... O socialismo ainda rondava os corações e mentes das pessoas. Beber coca-cola era então uma concessão imperdoável ao consumismo ianque. Ter um pedaço do Muro era prova inconteste de que se era um homem de seu tempo. Ocorre que, dado seu potencial visionário, meu irmão já abandonara os ímpetos socialistas de outrora. Mas qual seria a razão do fracasso escolar?
No início do segundo semestre letivo descobriu-se a nova atitude subversiva praticada pelo meu irmão. Enviada especial da família e do SNI para exercer patrulhamento ideológico sobre o neto, minha avó deu de espiar pela fresta da porta o que meu irmão andava lendo nas tardes em que se trancava no quarto sob o pretexto de estudar. Depois de algumas incursões, a espiã nos envia um relatório confidencial. Não se tratava de livros sobre a revolução cubana ou cartilhas da KGB, como esperávamos. Numa prova inconfundível de comportamento anti-burguês, meu irmão abria o livro escolar e punha no meio a edição mensal da Playboy, comprada com o suor mensal do meu pai num assento de caminha-caçamba. Em retaliação, a família remove o filho rebelde para o Sertão, comprometendo suas pretensões político-ideológicas e sua projeção revolucionária. O aparelho caiu. Como diria Dostoievski, os contemporâneos são os piores críticos. Tal reprimenda da família é imperdoável aos olhos onipotentes da história com h maiúsculo. Para mim, mais uma vez meu irmão dera provas de comportamento libertário. Descrente da militância político-partidária, trancava-se no banheiro, após as sessões de leitura da Playboy, e punha-se a praticar a justiça com as próprias mãos. Enquanto todos ainda acreditavam nas grandes narrativas políticas ocidentais, ele tripudiava do sonho burguês da ascensão social e da obtenção de prestígio. Os historiadores hão de reconhecer o pioneirismo de meu irmão, ao fundar a política da libido como utopia e orientação de vida.
Escrito por aecio às 07h08
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