Terra Recífilis (episódio de hoje: "Acerto de contas")
O blog “Acerto de contas”, veiculado na página do Jornal do Commercio, do Recife, noticiou anteontem (sábado) e ontem (domingo) um suposto arrastão que teria ocorrido na avenida Domingos Ferreira na tarde de sábado. Como prova do arrastão – que, diga-se, não conhece registro policial e é negado pela PM de Pernambuco – os autores do blog, um jornalista e um economista, se referem a um e-mail que lhes fora enviado por uma leitora.
O caso dá o que pensar. Primeiro, o fato de a PM negar resolutamente a ocorrência do arrastão já põe em descrédito a credibilidade da “notícia”. Segundo, ancorar a credibilidade da informação num e-mail enviado por uma leitora é insatisfatório, para não dizer pouco profissional. O sujeito não precisa ter cursado jornalismo ou comunicação social para saber que a veiculação de uma notícia, sobretudo da gravidade de um arrastão, depende minimamente dos seguintes fatores: confiabilidade da fonte, checagem da informação, e consulta aos principais atores envolvidos (neste caso, vítimas, PM, testemunhas e até os praticantes do arrastão). Já falamos da credibilidade da fonte, como também da resoluta negativa da PM. Quanto às supostas vítimas, os editores do blog sustentam algo do tipo: soube-se que várias outras pessoas estavam presentes, ou ainda, recebemos uma série de e-mails de pessoas que se disseram vítimas. Nada de checagem dos fatos. Detalhe: a página do JC chamava um link para a cobertura de um arrastão em Boa Viagem.
Ao que parece, a diferença entre boato e notícia tende a se diluir com o advento do atrelamento de blogs aos principais jornais do país. Quem acompanha minimamente os blogues de jornalistas que fazem a cobertura dos bastidores do poder em Brasília sabe bem o que é isso. Decididamente, é a lógica do vale-tudo, do boato que adquire o status de notícia. Pior, os autores dos blogues estão entre os mais prestigiados jornalistas da imprensa brasileira. Só pra citar um caso recente, a cobertura dada à tão badalada nomeação de Marta Suplicy a um ministério do governo transformou-se numa verdadeira novela nos blogues de alguns jornalistas. E o curioso é que o boato veiculado no início do dia, com ares de notícia fresca, era logo desacreditado ao longo do dia, ou em noticiários confiáveis.
Não tenho nada contra a inclusão de blogues no repertório de pautas dos jornais. Entretanto, há evidências de que a prática tem empobrecido o jornalismo. Uma coisa é um blog ordinário, como o meu, o seu, veicular informações (des)pretensiosas a respeito de fatos os mais variados e com coloridos argumentativos os mais variados. O compromisso com a ficção pode ser explícito. No entanto, no caso de blogues veiculados por jornais de grande circulação nacional, a informação ali prestada é completamente institucionalizada, para não dizer que se trata de uma informação veiculada em meio de comunicação que depende de concessão pública.
No caso em questão, o assunto tratado envolve um delicadíssimo ponto da pauta política nacional (violência urbana), particularmente do cotidiano recifense. É curioso notar que o tom da informação guardava um contido senso de “furo de reportagem”, embora os próprios editores reconhecessem que a fonte não era lá essas coisas. Ainda assim, insistiam na especulação em torno de um mero boato. Repito: se fosse no meu, no seu blog, problema nosso, e dos leitores. Mas este não é o caso em questão.
Num exercício de sociologia de botequim, vem à mente as reflexões de Karl Marx em torno da lógica da mercadoria sob o capitalismo. Em meio ao estudo da dinâmica de produção, distribuição, circulação e consumo, Marx dizia haver uma lógica dialética imbricando a primeira e a última das instâncias referidas. Resumindo, quem determina quem: a produção determina o consumo, ou o consumo determina a produção? Exercício perfeitamente aplicável ao estudo do empobrecimento das telenovelas brasileiras: o telespectador (consumidor) induz o conteúdo das novelas veiculadas pelas emissoras (produção), ou as telenovelas é que têm contribuído para o declínio do gosto na plebe rude? Obviamente as duas coisas podem andar juntas.
O preço da desejável desintermediação cultural promovida pelas festejadas novas tecnologias da informação pode ser, algumas vezes, o reforço das mesmas instâncias intermediadoras que estas tecnologias querem combater. Afinal, a lógica de produção e consumo não se rende facilmente, como o demonstra a “captura” de alguns blogues pelos veículos da grande mídia. No caso em questão, a violência urbana parece ter entrado no rol dos produtos a serem consumidos pelos leitores brasileiros, numa lógica que contribui para a sua reprodução.
Em tempo: não se encontra mais qualquer post alusivo ao suposto arrastão em Boa Viagem no blog “Acerto de contas”. Será que houve algum acerto de contas?
Escrito por aecio às 16h29
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Vigília do belo
Não raro se vê, em algumas ruas e avenidas que entornam o centro de Londres, buquês de flores afixados nos postes de iluminação ou semáforos, e mesmo em algumas calçadas. Vistas de relance pela janela do ônibus ou quando se sai flanando pelas ruas, as flores chegam a causar certo enleio em face do corre-corre da vida urbana. O viajor desavisado pode ser induzido a pensar que se trata de uma atitude fortuita ou uma inclinação geral pelo cultivo e exposição de flores. Mas a beleza e o aroma das flores em via pública querem registrar que ali, naquela esquina ou curva ou bifurcação, uma vida irredutível foi encerrada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana.
Quando dos atentados terroristas de julho de 2005, as calçadas e as plataformas de desembarque das estações de metrô atingidas, como a de King’s Cross & St. Pancras, ficaram repletas de buquês e flores dispersas. Uma interpelação a que se pensasse – até pelo olfato - no puro e simples registro do mal.
No Brasil é bastante comum, sobretudo nas cidades interioranas, afixar-se uma cruz rodeada por flores no acostamento das estradas. É a conhecida cruz-de-beira-de-estrada. Ali também está dito que uma vida irredutível foi surrupiada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana. A beleza singela do ato nunca deixará de ser uma angular incômoda no raio de visão dos viajores. O hábito, de tão corriqueiro, caiu no anedotário popular. No Sertão de Pernambuco, quando um sujeito se veste elegante e garbosamente para ir à rua, costuma-se fazer chacota dizendo que ele vai telefonar para os parentes em São Paulo, vai fazer exame de fezes, está um lord, alinhado, ou está mais enfeitado que cruz-de-beira-de-estrada.
Imagino este hábito das flores estendido às grandes metrópoles brasileiras. Cidades como o Recife, Rio de Janeiro ou São Paulo se transformariam em imensos jardins, caso cidadãos anônimos resolvessem registrar com flores sempre que uma vida fosse encerrada abruptamente em lugares públicos, seja pelo acaso de um acidente, pela negligência humana, ou pelo registro puro e simples do mal. Neste caso, o uso da cruz seria impensável: as vias públicas ficariam interditadas, e seria necessária toda uma política de reflorestamento para dar conta das árvores postas abaixo para extrair a madeira das cruzes.
Com as flores, por outro lado, as vias públicas exalariam um aroma agradável, sensual, e igualmente perturbador, incômodo. Como se o belo teimasse em exercer sua vigília diante do grotesco da banalidade da vida e da morte, diante de um equilíbrio social perverso. O aromático desconforto seria plástico e humanizador. Ao menos um sinal de que não estamos tão anestesiados assim.
Escrito por aecio às 15h36
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