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Dicionário Amaralinas
Quedense tranquilis: expressão refinada oriunda do espanhol arcaico, que designa uma recomendação ou apaziguamento de uma situação a fim de que os interlocutores preservem a serenidade, placidez. Contemporaneamente o uso vulgar é dado pela expressão mais usual “quedarse tranquilos” ou “ponerse tranquilos”, embora algumas vezes o uso da variante clássica seja observado, para regozijo dos amantes do bom espanhol. Mesmo entre os escritores e poetas clássicos, o manuseio da expressão “quedense tranquilis” requeria habilidade ímpar com o idioma espanhol. Miguel de Cervantes, autor do clássico da literatura universal "Dom Quixote", é considerado aquele que mais e melhor a utilizou, contribuindo para o estabelecimento dos alicerces básicos da prosa moderna.
Para surpresa e admiração de filólogos, lingüistas, escritores e poetas em língua espanhola, recentemente o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, empregou com perfeição a expressão, ao conceder entrevista a um grupo de repórteres durante almoço com o presidente do Equador – o qual, diga-se, vergonhosamente desconhecia “quedense tranquilis”. O presidente brasileiro referia-se ao temor dos jornalistas de que o festejado “apagão aéreo” se repetisse durante o feriado de Páscoa, e acalmava-os, assegurando que não havia motivos para tal temor.
A admiração de intelectuais e literatos de língua espanhola foi tripla. Primeiro, admiraram-se com a perspicácia com que a expressão foi utilizada por um chefe-de-Estado, sobretudo numa situação corriqueira, já que sempre fora utilizada como evidência de genialidade literária. Segundo, admiraram-se que a expressão fosse brilhantemente reavivada por um brasileiro, praticante do idioma português, e não por um praticante do espanhol – o que obviamente lhes infringiu certa vergonha, sobretudo diante do desconhecimento da expressão demonstrado pelo presidente equatoriano. Terceiro, não conseguem entender como a imprensa brasileira e setores da intelectualidade criticaram e fizeram mesmo chacota do presidente por ter usado a expressão. Atribuem tal desfaçatez a dois motivos básicos. O primeiro, o recorrente preconceito classista que, de acordo com o compositor e escritor Francisco Buarque de Holanda, é dirigido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E segundo, a total ignorância daqueles que criticaram o presidente, deixando de perceber a genialidade contida no uso da expressão. Tal desconhecimento gritante do espanhol arcaico contrasta com o europeísmo com freqüência arrotado pela intelectualidade brasileira.
Escrito por aecio às 18h03
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O Sertão e a beira-mar
Previsões científicas recentes – não entro no mérito se catastrofistas, realistas ou até otimistas – dão conta de que em cinqüenta, sessenta anos cidades brasileiras como o Recife e o Rio sofrerão graves inundações por conta do festejadíssimo aquecimento global, em virtude de sua posição em relação ao nível do mar. Precavido que sou, já planejei com a minha senhôra o que faremos na volta ao Brasil. Decidimos que voltaremos de vez pro Sertão, e lá chegando compraremos um casebre decente que transformaremos em barraca de água de coco e venda de bronzeadores. Andamos vendo os preços de uns lotes de terra, que facilmente transformaremos numa pousada. Também compraremos alguns bugres para aluguel e equipamento especial para passeio em dunas. E, claro, contatamos uma equipe de TV britânica que fará uma série televisiva sobre os tubarões sertanejos. De resto, é abrir as espreguiçadeiras, o guarda-sol, as cervejas geladíssimas e aguardar a chegada do Atlântico. Num messianismo às avessas, o sertão vai virar mar...
Escrito por aecio às 17h18
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Freudiana I

Escrito por aecio às 18h48
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Freudiana II

Escrito por aecio às 18h47
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O irreal freudiano

(Traço de Sigmund, referência a um conhecido motivo da arquitetura grega)
Entre os atrativos do fim de semana, visita ao Museu Freud, em Hampstead Heath. Uma dose de ocultismo na primavera vacilante. O museu fica na casa em que Sigmund passou seu último ano de vida (1938-1939), e na qual sua filha, Anna, viveu até morrer, em 1982. O bairro foi desde fins do XIX reduto de intelectuais e artistas de vanguarda, com moradores de inteligência imodesta que vão de Sigmund, passando por aquele que os portugueses chamam de Carlos Marcos, parte da galera da Bauhaus e outros modernistas, surrealistas e por aí vai... Boa parte dos artistas e intelectuais da Europa correu para lá durante a vigência do Nazismo, inclusive Sigmund. Após a segunda guerra, a especulação imobiliária toma conta do lugar.
O bairro é um despautério de belo, e a casa dos Freud não é nada desconfortável. Detalhe: já na década de 1930, Sigmund cobrava a bagatela de £150.00 (pouco mais de R$ 600,00) por uma deitada no divã, como forma de bancar seu exílio em Londres. Como contribuição ao culto quase gilberto-freyriano (por instantes pensei que estivesse na Fundação Gilberto Freyre, tamanho o culto à personalidade), deixamos £8.00 no cofrinho dos Freud e adentramos a cozinha do pai da psicanálise.
Se alguém estiver interessado em ver os desenhos de Freud, o divã em que ele clinicava, os seus vários retratos e caricaturas e outras banalidades, vale a pena. Do contrário, frustra-se inclusive por não se conseguir discernir os títulos dos livros constantes nas estantes da biblioteca. Aqui e acolá um Goethe e muito Poe, mas o resto não dava pra ver nem ler – além de muito distante do cordão de isolamento, escuro (muito diferente, por sinal, da considerável biblioteca de Trotski, que já tive a oportunidade de visitar e conferir). De interessante mesmo no museu, só a parte que fala das viagens de Sigmund pela Europa, e as verdadeiras ‘viagens’ que ele derivava delas. Atenho-me ao exemplo mais definidor do ‘gênio’ freudiano.
Obcecado pelo passado, Freud tinha na Itália e na Grécia o seu sonho de viagem turística (obsessão imperialista, obviamente). Ao viajar pela primeira vez a este último país, foi visitar o Pathernon. Gostou tanto, que disse que foi sua primeira experiência com o “irreal”. E é aí onde reside sua criatividade de ficcionista. O sujeito não se torna um dos principais nomes do século XX por acaso. Pois Sigmund disse em carta à esposa que o êxtase intelectual e estético propiciado inicialmente pela visão do conjunto arquitetônico deu lugar a um estado de paralisia e terror. E então ficou desnorteado por muito tempo, a ponto de comprometer a continuidade do passeio. O motivo de tanto alvoroço ele descobriria mais tarde: ele se deu conta de que chegar ali, no monumento considerado o ápice da criatividade e genialidade ocidental, implicara em ultrapassar o seu pai, pois que este sempre sonhara e no entanto nunca pudera ir à Grécia. A tormentosa sensação de superar o pai foi para o pobre Sigmund motivo de uma culpa inelutável, a qual fez com que o prazer estético e intelectual de estar no Pathernon desse lugar ao pavor e ao assombro. Daí o contato com o “irreal”. Reconheçamos os recursos literários de Sigmund!
Para não sair de mãos abanando, comprei um retrato do pai da psicanálise desenhado por Dali e um souvenir da cadeira exclusivamente projetada para o dito cujo – bonita e criativa. De resto, enviarei uma cópia de uma das coleções de antiguidades de Sigmund para um dos amigos na Terra Brasílis. Trata-se da coleção “Phallic Amulets”. Talvez um amigo sociólogo-psiquiatra seja o merecedor da oferenda. Sempre desconfiei que por trás de suas críticas ferrenhas à psicanálise se esconde um temor incomensurável do falocentrismo freudiano.
Próximo fim de semana visito o cemitério em que Carlos Marcos jaz, no mesmo bairro. Sim, companheiros, Marx morreu! Pior: está enterrado na terra que pariu o neoliberalismo.
Escrito por aecio às 18h44
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